31 de outubro de 2015

Corriam por vales perdidos.

Corriam por vales perdidos
As águas desorientadas
E no silencio dos meus sentidos
O sol brilhava por entre frestas
Das árvores vestidas de outono
Que melindram meu coração,
Corriam deixando nas margens
Resíduos doutras passagens,
Folhas velhas seguem destino
Outras se prendem nos ramos
Da tempestade causando danos,
Passeando por este lugar 
Onde outrora as recordações
Não eram mais que emoções
Nos meus momentos de solidão,
Deixo-me vaguear em reflexão 
Por entre o cheiro da natureza,
E as folhas que ganham cor
Que caem sumindo nas águas
Olho as águas, até me sinto
Como as folhas, sem fortaleza,
***
Cidália Ferreira

29 de outubro de 2015

Deixei neste lugar...

Deixei neste lugar um sentimento, minha ilusão
Meras palavras lançadas ao acaso, e alma vazia
São férteis os sentimentos que têm meu coração
Quando olha o que deixou num misto de alegria

Sentados, sozinhos, de fronte ao mar  tão sereno
Onde neste pôr-do-sol relembro nossos carinhos
Que aqui sempre trocámos,  felicidade em pleno
Reflectindo nossas vidas por desertos caminhos

Agora, num vazio banco, ficam  as recordações
Onde  tantas vezes  fizemos nossas lamentações
Salvaguardando carinho que teu coração me deu

Deixei-te  neste lugar, que vou agora à procura
Dos momentos, as palavras, talvez seja loucura
Um sentimento  vazio, que meu coração sofreu
****
Cidália Ferreira.

27 de outubro de 2015

Sinto que meu coração murchou.

Sinto que meu coração murchou
Será da chuva ou da saudade
Ou apenas desta ansiedade
Que me devora por dentro
Sem me poder defender,
Sinto-me tal qual a flor
Quando cai sem ter razão
Ou por culpa do calor
Se murcha, não é em vão,
Sou feita de carne e osso
Sofro de desilusões 
Ou passadas recordações,
Que ao remexer lá no fundo
Fez abrir meu coração
Ao sentimento profundo
Das mais tristes passagens
Que alguém poderia ter,
Recordar não é difícil
Difícil é suportar
Falar da dor, sem chorar.
E viver uma vida, sem sofrer.
***
Cidália Ferreira

26 de outubro de 2015

Coisas de uma vida...recordações.. o inverso, parte 2

PARTE 2:
Como o texto anterior e outros que já tenho feto, é ou foi sobre as recordações, neste caso boas, e várias pessoas já me têm falado, e o teu Pai?

Bem, falar do homem que se dizia meu pai não é fácil, nada mesmo, não é por ter boas recordações, não, antes pelo contrário, foi sempre uma pessoa de vinho, não é caso único, afinal existem muitos Maneis por aí.
Desde pequena que nem eu nem as minhas irmãs, incluindo meu irmão, que não temos boas recordações. Lembro-me muito bem das bebedeiras, e das tareias que a minha Mãe levava, lembro-me muito bem, que, um dia, era um Domingo à noite que chegou a casa tão carregado, que tornou essa noite num inferno para nós. Naquele tempo, e ainda não era naquela casa que mencionei anteriormente, já a minha mãe tinha animais e trabalhava nas terras. Era o tempo das abóboras, e então estavam perto da porta da cozinha, só me lembro que quantas haviam cá fora, quantas foram atiradas para dentro da cozinha, um terror...para além de ficar tudo sujo, partiu muita coisa.... Claro, nós com medo, chorávamos de volta da minha mãe.

Quantas vezes antes de começarmos a comer a sopa, e quase do nada, ele puxava pelo cinto, e todas levávamos... talvez para já não comermos. Os anos foram passando, eu até era mimada por ele, mas levava na mesma... Ele não sabia educar, na escola nunca se preocupou connosco. Queria é que trabalhássemos para ele. Os anos foram passando, a minha Mãe, além de ser uma sacrificada com trabalho, porrada e filhos, nunca deixou que nos faltasse nada, mas a ela faltava-lhe o carinho de um homem que lhe desse o verdadeiro valor. Quando passámos para a quinta, as coisas não modificaram muito, pois a escrava estava lá, terras, filhos e aturar vinho, a vida continuava...Nós crescemos, fomos muito bem educados pela minha Mãe, tal como sempre a respeitamos, coisa que ele não sabia fazer

Os anos iam passando, e para nós, a Mãe, era Mãe e pai, ele só sabia ralhar, chamar nomes feios e bater.. Já fora de casa, diziam que era boa pessoa. Tudo o que havia para resolver, era ele a Mulher da casa. Ela tinha menos 11 anos que ele, e partiu 16 anos antes dele.

Bem e como o texto já vai longo, mesmo resumidamente, das ultimas más recordações, apenas vou falar na que mais me marcou, que ainda hoje está atravessado. Foi quando a minha Mãe partiu, nessas semanas eu fiquei em casa dela/dele, para ajudar numas tarefas. Cortar batatas para todos juntos, as filhas e genros, semearmos, o que aconteceu... Quando foi na altura de começar a colher as primeiras, eu pedi-lhe umas batatas para o jantar, onde ele me responder com voz de mau e invejoso: Porra, um homem não pode ter nada, levem tudo ca###o, levem tudo... e eu, nem uma levei, fui para minha casa com um nó na garganta. Mas, na altura de as arrancar todas, nós, todos estávamos lá ajudar...aliás, ele não fazia nada sem nós. Não dava nada a ninguém, nada, refiro-me aos filhos...se levávamos, outrora era a minha Mãe que o fazia às escondidas dele. Nunca foi um Avó em condições, pois se não foi pai... quando nasceu a primeira neta, ele dizia-lhe para lhe chamar tio...Enfim!!!

E acabo por aqui...que  Deus lhe perdoe.
Estas e tantas outras são as recordações que tenho do homem a quem eu chamava de pai.

Agora entendem o quanto a minha Mãe nos fez falta. desculpem este meu pequeno desabafo.

Cidália Ferreira 

24 de outubro de 2015

E tudo o tempo levou....Recordações de uma vida.

Tinha eu, quase 12 anos, quando estreamos esta casa, era nova, foi feita a fim de, quem para lá fosse, tinham que fazer as terras que existiam em volta da casa, e não eram assim tão poucas. Éramos 6 filhos e nesta casa, nasceu mais uma, a última moradora a deixar a casa, isto porque, vivia na altura lá em casa,  daí ser a ultima, porque antes dela, partiu a mãe, que a tinha casado à um mês atrás.

Aqui se viveu uma vida de vinte anos, muitas alegrias, muito trabalho, muitas emoções, muito nervos, muita, muita luta, enfim algumas aventuras também.

Um coisa era certinha, quem casasse com as filhas, tinha que trabalhar nas terras, e não foi difícil, pois todas as moças, ou seja, manas, contando comigo, casaram com  Homens já habituados, e quem não estivesse, tinha que se habituar... Na volta, éramos sempre compensados, nunca ficávamos a perder... isto pela parte da minha Mãe, que, tudo era pouco para dar  às filhas, e genros, digo filhas, porque apenas existia um rapaz, filho. A Mulher que trabalhava desalmadamente nesta quinta, era umas mão abertas...

Era Mulher,(caseira) desta quinta, era do tipo mulher homem, tinha garra, e a meu ver trabalhava demais. Já o seu marido, (meu pai), trabalhava numa fábrica e ao fim de semana gostava de uns copos, lá ia fazendo alguma coisa, mas, quase” sempre” por obrigação...muita guerra aqui se travou, muitos nervos e por vezes lágrimas.

A vida passou, durante estes vinte anos, as filhas casaram, o netos nasceram, o trabalho das terras continuava sempre. As filhas(os) tinham emprego, e o infantário dos filhos era a casa da avó, que fazia as terras, tomava conta dos netos, e o almoço à hora certa estava na mesa, que, estava sempre cheia, pelos netos outros que não eram netos e ainda, almoço para algumas filhas. Era uma correria, mas sabia tão bem chegar ali e o almoço ser sempre surpresa.

Tudo isto, e muito mais, são coisas de uma vida, sofrida, onde a vida não foi gozada, pela carga de trabalho que se tinha, onde apenas se descansava ao domingo à tarde, falo da minha Mãe. Que um dia Deus resolveu levá-la assim de repente, para junto dele, sem que nos deixasse despedir dela...Ainda hoje sinto saudades dela, pois se fosse viva era  muito feliz com os bisnetos que já tinha. 

E desde essa data já lá vão quase 22 anos, e, por mero acaso voltei ao local onde a vi sair pela última vez, por esta porta, para o cemitério. Tudo se desmoronou e esta casa não mais voltou a ter moradores, assim morreu também, a casa as terras desapareceram, é um matagal, enfim o sitio não perece o mesmo, apenas identificamos pela casa e o caminho alcatroado.
Uma nogueira, por baixo, o poço, que abastecia a casa e, na altura do Verão se faziam as regas, nunca nos deixou ficar mal..... na Altura do calor que bem sabia estar por baixo desta árvore que ainda tinha uma parreira, ao fresquinho...!! Nada se parece com a realidade de outrora.

Uma casa com muita  história... muitas lágrimas... alegrias também...e muitas, muitas saudades!! Foi assim, a minha visita  a este local.... Partilho convosco. São apenas memórias.

Cidália Ferreira